
Incomodados, meus pés não queriam mais pisar naqueles sapatos duros, desconfortáveis, que só ficam belos em fotos de revista e na promessa falsa do vendedor. Meus dedos sonhavam com chinelo macio, o próprio contato com o chão frio ou areia fina que chega a fazer boas cócegas.
As camisas ficarão guardadas por um tempo. Meu corpo quer respirar, e suar, apenas com uma camiseta Hering, branca se for possível. Calças, de preferência, aquelas bem largas, que não apertem a cintura. Ah, e o relógio ficou escondido na gaveta, que só abrirei no próximo mês. Esperei tanto, com tantos planos, que as férias chegaram no momento exato, nem um dia a mais.
Até hoje não experimentei sensação libertadora maior do que essa. Não há culpa, passado, remorso, somente merecimento. Trabalhei tanto nos últimos meses, misto de felicidade, preocupação e responsabilidade. Nos próximos dias quero sonhos como bexiga cheia de gás hélio. Ao mesmo tempo que estarei cheio, vou levitar, solto no ar e só o vento será capaz de me levar. Serei obediente apenas às ordens do coração.
Ninguém terá o direito de estourar o meu balão. Viajarei com ele, por terras por onde ainda não estive. Lógico que não comprei as passagens: é preciso levar pouca bagagem, livros, fotos e alguns brigadeiros.
Se Deus ajudar, tudo será tranquilo. Alguns dias trocarei o dia pela noite só pra ver o Sol acordar. E nunca vou dormir antes de me despedir da Lua, que anda tão iluminada, solitária em um céu de poucas estrelas. Agosto é assim. Vou, mas volto, quem sabe ainda esperançoso com mudanças que virão. Só não sei quando. Não quero pensar nisso justo agora.
Nesta segunda-feira estabeleço a possibilidade de ver, cada um do seu jeito, um céu ainda mais azul.
“É bom andar a pé
sem dinheiro,
sem documento
a favor do vento
seminu
É bom andar a pé
devagar para aguentar o calor
e olhar a vista pro mar
melhor...”
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