Esqueceu de colocar para despertar o rádio-relógio naquela madrugada fria. Fez bem. Não queria acordar mesmo, daquela forma, desumana, com o soar da campainha, barulhenta; no minuto seguinte, se não tomasse cuidado, estaria atrasado. Pela manhã, a hora passa sem piedade, os ponteiros dão pulo e num piscar de olhos, ainda embaixo do edredom quente, o corpo deseja permanecer ali, imóvel, protegido pelo carinho da cama.
Pensou que seria o único momento de prazer no dia, outras decisões nada fáceis tinham sido tomadas na noite anterior. Também não queria compartilhar com ninguém, apenas com a própria consciência, essa não deixava esquecer nada, nunca.
Levantou-se imediatamente procurando por duas águas: a do chuveiro, para limpá-lo dos sonhos e do cheiro do velho pijama de lã; a da chaleira, que em instantes seria transformada em um belo café amargo, purificando a garganta que ainda guardava soluços.
Talvez fosse julgado pelos mais íntimos. Fez o que o coração mandava, conforme o dito popular. Não seria a primeira vez que errava, desta forma sim. Limpo e satisfeito, caminhou até a banca de jornal para alimentar-se das manchetes da manhã, mas estava sem fome, só leu o necessário para convencer-se de mentiras.
Antes de seguir sem rumo pela calçada, parou e ficou hipnotizado pelas cores da floricultura. Há anos não comprava flores. Mentira, nunca havia comprado, nem mesmo para a primeira namorada, opção óbvia em datas mais óbvias ainda. Sentiu o cheiro da rosa, não quis. Percorreu os olhos por margaridas e encontrou consolo nos copos de leite. Brancos e verdes. Puros. Beleza adulta, sem frescura.
Comprou três arranjos. Um para cada amor. Mandou entregar em endereços diferentes. A mãe idosa chorou ao receber pelas mãos do motoboy. Correu e colocou no vaso da mesa da sala. Queria manter viva.
A mulher, com quem foi casado por mais de cinco anos, não entendeu, não reclamou, acolheu o gesto e guardou como se fosse o presente mais caro, raro, recebido das mãos do ex-amado.
Última flor chegou na própria casa. A experiência de receber flores nunca havia acontecido, uma certa ignorância não permitia. Lembrou dos problemas e chorou igual criança com saudade do colo da mãe e do afago da amada. Não adiantava, o erro estava consumado e o copo de leite era sinal de arrependimento. Tentaria, se possível, acordar diferente no dia seguinte.
"Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei
Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência
Sempre..."
(trecho da música Minha Herança: Uma Flor, de Vanessa da Mata)
Pense bem.
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